search
highlight_off
Foto: acervo @sophiandreazza
Cultura
Atualizado em às

CENA 015 no Globo de Ouro: conheça Sophia, artista criadora da arte do santinho “Santa Nanda da Sorte”

Enquanto O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, fazia história no Globo de Ouro 2026, vencendo Melhor Filme de Língua Não Inglesa e garantindo Melhor Ator – Drama para Wagner Moura, um detalhe chamou a atenção do público, da imprensa e dos próprios artistas: um pequeno santinho com a imagem de Fernanda Torres, protagonista de Ainda Estou Aqui, filme que rendeu à atriz o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama no mesmo evento, só que em 2025.

O amuleto, apelidado pela atriz Alice Carvalho de “Santa Nanda da Sorte”, foi criado por Sophia Andreazza, ilustradora residente de Sorocaba, e entregue à equipe do filme em Los Angeles como parte de uma ação especial realizada no estande da TNT e da HBO no tapete vermelho da premiação.

O Agenda conversou com a artista para entender como tudo aconteceu, como foi ver sua arte parar nas mãos de Wagner Moura, Kleber Mendonça Filho e de que forma Sorocaba faz parte dessa trajetória.

Do estande para o tapete vermelho

A entrega do santinho aconteceu em um espaço montado durante a cobertura do Globo de Ouro. A ideia era que os santinhos fossem distribuídos para parte da equipe do filme, mas nada era garantido.

Quando a produtora conversou comigo, falaram: ‘a gente acha que vai rolar, mas a gente não sabe. Porque assim, tem toda uma dinâmica do tapete ali na hora. Como as pessoas estão, como está o clima. Se tem espaço pra entregar, se as pessoas vão receber bem ou não’.

Por isso, Sophia não criou muitas expectativas.

Eu estava torcendo para que desse certo, mas sem um ‘tenho certeza que vai aparecer na mão deles’. Então foi uma excelente surpresa.

o agente secreto globo de ouro

Foto: Reprodução/Globo

A arte

Apesar de ter seu traço e identidade, Sophia faz questão de reforçar que o “Santa Nanda da Sorte” é fruto de um processo coletivo.

Ela explica que tudo começou a partir de um briefing.

Eu não fiz isso sozinha. Eu participei de um briefing criado por uma produtora, que me trouxe uma situação, que procurou um trabalho específico. Que me procurou especificamente para fazer isso. Conversa. Um vai e volta. Isso daí fica marcado na arte. Fica marcado na forma como ela foi feita, como ela comunica, como ela toca as pessoas.

O desafio era: criar algo pequeno, simbólico e que pudesse ser carregado no bolso.

“Eles queriam que fosse criada uma arte possível de colocar no bolso dos artistas. Era uma ideia do Santinho.”

A partir disso, Sophia mergulhou em pesquisa visual.

“Fui pesquisando bastante os Santinhos por aí. Como eles são feitos. Qual é o design deles. São os arabescos, são as coisas ao redor, as cores. Todos eles têm esse fundo meio com nuvem.”

Além da estética, havia também o cuidado de representar Fernanda Torres com fidelidade.

“Dar as feições da Fernanda, que eu acho que é algo muito importante quando a gente vai desenhar alguém.”

Cinema, música e cultura pop como motor criativo

Quem acompanha o trabalho de Sophia já percebe uma forte conexão com cinema, música e cultura pop, algo que também se manifesta nesse projeto.

Ela diz que sua principal fonte de inspiração vem daquilo que consome.

“O que mais me inspira são os filmes, são as músicas, são as coisas que eu consumo, são os artistas maravilhosos brasileiros, contemporâneos ou não, que me acompanham. A arte não se cria sozinha.”

Esse repertório acumulado ao longo dos anos permite agilidade e maturidade criativa.

“Com quase 10 anos de carreira já na ilustração, eu consigo fazer em dois dias uma ilustração dessas, por exemplo.”

Sorocaba como território formador

Mesmo tendo nascido em São Paulo, Sophia veio aos 10 anos pra Sorocaba e carrega a cidade como parte essencial de sua formação artística.

“Comecei a vender na Feira do Beco do Inferno e depois também na Feira Selvagem. Participei de produções, fiz camisetas, várias coisas.”

Ela destaca a importância desses espaços.

“Esses foram dois espaços culturais de Sorocaba que me ajudaram muito nisso.”

Arte, IA e os desafios do futuro

Ao falar sobre o futuro de sua arte, Sophia é honesta sobre os medos que atravessam a profissão hoje.

“Eu acho que é muito complexo falar sobre o futuro nesse sentido da arte, porque a gente realmente está enfrentando um momento muito difícil. Com a IA, com todas essas ferramentas, eu imagino o medo e o receio que jovens artistas sentem nesse momento.”

“Eu sinto medo também. Ano passado, por exemplo, eu me inscrevi em diversas agências de ilustração nacionais e internacionais para ter o meu trabalho agenciado, e eu ainda não consegui isso. Eu recebi, sei lá, 30 nãos.”

Ela reforça que o sucesso também é feito de negativas.

“A gente vê muitos êxitos dos artistas que a gente admira, mas esquece das falhas que eles têm no caminho.”

Uma mensagem para jovens artistas

O conselho de Sophia é: trate todo trabalho como importante.

“Nenhum trabalho é pequeno. Nenhum trabalho é menos ou mais importante do que outro. Eu dei a mesma atenção a esse trabalho que eu dou a todos os outros.”

E finaliza:

“O software não faz o artista. Comece com o que você tem. A partir disso você vai criando seu estilo, e a partir da sua criação de estilo você vai conseguir os seus trampos.”