Ela é demais!

24/01/2014

Olá, jovens!

Quando li a sinopse de Ela pela primeira vez, lá em Setembro do ano passado, achei a premissa interessantíssima. Um cara melancólico, que se apaixona pela inteligência artificial do seu próprio celular. Ao mesmo tempo em que me chamou a atenção, senti um frio na barriga. “Esse filme vai ser muito bom. Ou vai ser um lixo!“. Fiquei com medo da decepção. Entre confirmações e adiamentos, o filme tem estreia confirmada para 14 de Fevereiro, aqui no Brasil. Eu vi os trailers, vi os comentários, vi as entrevistas e vi as indicações ao Globo de Ouro, Oscar e prêmios dos sindicatos de Hollywood. Não resisti. A ansiedade tomou conta, eu fui lá e baixei uma versão do filme na internet. Não está na melhor qualidade, é verdade, mas deu pro gasto. E quando estrear na telona, estarei eu lá, pra contemplar essa obra-prima em toda sua beleza, em alto e bom som.

Durante minha expectativa, eu já percebi pelos trailers que Spike Jonze, que dirige o filme e assina o roteiro, havia absorvido nesse filme muito do que se vê em alguns filmes indies, como os de Wes Anderson, como Submarine. São cenas de muita contemplação, muita sensibilidade e que exploram o personagem no seu mais íntimo. É um retrato perfeito da solidão. Closes silenciosos, um olhar vago, e um filtro dessaturado compõe perfeitamente cenas que carregam um alto grau de sensibilidade. A brincadeira é interessante, mas já começa a ficar repetitiva. Spike Jonze foi além. Muito além. Ele soube casar como ninguém esse tipo de cena com uma fotografia primorosa, elegante. Sua Los Angeles “de um futuro próximo” é uma metrópole extremamente moderna, mas solitária. Espaços muito abertos, pouco frequentados. O cenário urbano finalmente parece comportar sua própria população. População essa, que parece cada vez mais afastada da sua própria realidade. É uma visão de “futuro” das mais palpáveis que eu já vi. Um futuro perfeitamente possível. Nada de exageros, nada de neons, nada de colorido. Tudo é clean.

Como designer de formação que sou, não consegui deixar passar batido. A direção de arte do filme também é impecável, a paleta de cores limitada a cores básicas funciona perfeitamente bem. Um capricho, um cuidado, em cada detalhe. As pessoas usam roupas básicas. Não estão estressadas. Tudo parece encaixado nesse mundo “moderno”. Tudo menos Theodore. Depois de um traumático fim de casamento, divide seus dias entre o trabalho como escritor de cartas românticas e ouvir músicas melancólicas, curtindo sua fossa. Tudo muda quando instala em seu celular um novo sistema operacional que é inteligente, capaz de interagir e evoluir conforme a relação com seu usuário. Samantha logo se torna confidente, psicóloga, e algo mais do seu frágil usuário, que chega a ser definido por um amigo como “metade homem, metade mulher.”. Dono de uma sensibilidade ímpar. Ela, acima de qualquer coisa, é um filme muito sensível.

E quem melhor pra retratar sensibilidade do que Joaquin Phoenix? O cara já é conhecido por se entregar de corpo e alma aos seus personagens. Dessa vez, ele entrega o coração. A tristeza, a alegria, a paixão, a decepção. Tudo passa por seus olhos. Impossível não se apegar aos seus dramas e não se entregar aos clichês de relações amorosas impossíveis, de relações à distância, sobre os quais o filme reflete. São clichês de filmes de amor. Aliás, o que é mais clichê do que o amor? Eu senti alegria, ciúme, raiva, esperança, vontade de chorar. Tudo através dele. Trabalho primoroso, meu caro Joaquin.

Só não é melhor do que o roteiro. Relembrei do maravilhoso Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, onde as pessoas lidam com coisas inimagináveis de forma comum. Os personagens têm um pouquinho da magia do Encontros e Desencontros. Aquele frio na barriga que eu citei lá no começo, era pelo medo do filme acabar como alguma porcaria mela-cueca de comédia romântica no estilo Katherine Heigl. Grata e extrema surpresa. É aliviante saber que apesar das crises, apesar dos remakes, apesar de tudo, ainda existe um texto de qualidade tão incrível como o de Spike Jonze. Uma trama que parecia bobinha, acaba se tornando uma história tocante de amor, que ainda fala sobre perda, e expõe uma sensacional crítica ao comportamento humano. Até que ponto chega a nossa dependência da tecnologia? É impossível não fazer essa relação. Hoje, estamos presos aos nossos smartphones, com joguinhos. Amanhã eles vão tomar conta das nossas emoções? E quanto a nós? Vamos nos entregar a eles? É uma questão pra se refletir. Especialmente depois de se entregar à Ela. Se eles tiverem a voz da Scarlett Johansson, deve ficar mais perigoso.

Uma pena que a Academia não vá tratar com tão bons olhos quanto os meus, especialmente quando se concorre com um filme como 12 Anos de Escravidão, que tem uma temática tão forte. Ela deve ficar distante do Oscar de Melhor Filme. Mas o roteiro, já levou o Globo de Ouro. Uma história tão simples, mas ao mesmo tempo tão verdadeira, merece o Oscar. Merece mais. Merece apreciação.

Até a próxima.

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